Material coletado após vazamento de óleo vira combustível no interior

Manchas de óleo estão chegando às praias do Nordeste desde o final de agosto - Léo Domingos/Fotos Públicas

Quase mil toneladas de petróleo cru, misturadas com areia e outros materiais, foram coletadas nas praias de toda a Bahia até o final da primeira quinzena de dezembro, segundo informações da Secretaria de Meio Ambiente da Bahia (Sema). Desse total, 385 toneladas foram processadas junto com outros resíduos em uma empresa especializada e enviadas para servir de combustível nos fornos de uma cimenteira do interior.

A estratégia de blendagem (mistura) e posterior queima será adotada para todo o óleo recolhido pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) nos 22 municípios que tiveram decreto de emergência reconhecido. “É uma empresa licenciada, então temos a certeza de que a destinação está sendo feita dentro do regramento ambiental”, reforçou a diretora administrativa do Inema, Daniella Fernandes.

Conforme informações da empresa parceira do Inema, os fornos da cimenteira operam com filtros para controle das emissões e as cinzas resultantes da queima do óleo coprocessado serão incorporadas à massa do cimento. Em Salvador, a destinação final das 135,5 toneladas coletadas será definida após processo de licitação que está sendo realizado pela Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana).

No total, 31 municípios tiveram áreas afetadas pelo óleo na Bahia, desde 1º de outubro, quando foi registrada a primeira mancha no litoral norte do estado. Segundo estimado pela Sema, a Bahia ficou em terceiro lugar quanto à quantidade de óleo espalhado no litoral. Considerando todos os pontos atingidos nos estados do Nordeste, além do Rio de Janeiro e Espírito Santo, a quantidade recolhida ultrapassou as cinco mil toneladas.

Especialista em recuperação de áreas impactadas por petróleo e professor da Universidade Federal da Bahia, Ícaro Moreira considera a tecnologia escolhida pelo estado adequada, diante das opções aplicáveis para o elevado volume de óleo a ser descartado. Ele vê como positivo o fato de a energia perdida no vazamento do material ser aproveitada para um fim industrial.

Nova fase

Embora o último levantamento do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente), de 20 de dezembro, aponte a existência de manchas na região de Cumuruxatiba e Abrolhos, o Comando Unificado de Incidentes deu a situação de emergência por encerrada na Bahia dia 19. O relatório publicado pelo órgão ambiental indica que 223 localidades baianas ainda têm vestígios de óleo.

Em entrevista concedida na última quinta-feira, o titular da Sema e coordenador do comando, João Carlos Oliveira, informou que nos últimos dez dias não havia sido registrada chegada de óleo às praias do Nordeste.

Contando que fez um sobrevoo em Abrolhos, o secretário ponderou que a região do extremo sul recebeu material residual, em quantidade bem menor do que a registrada em localidades mais ao norte.

“A situação de Abrolhos é sempre preocupante porque é um santuário biológico, que tem corais só encontrados lá”, ressalta.

Oliveira explica que o comando continuará se reunindo, mas com outro foco. “Agora, o segundo momento, que é extremamente importante, é fazermos o acompanhamento de pesquisa, monitoramento e mitigação dos impactos do óleo nos manguezais e nos estuários”, defende.

A preocupação com o futuro dos manguezais também é destacada por Ícaro Moreira, pois nessas áreas a limpeza convencional não funciona. “Esses locais se encontram com grande quantidade de óleo, e isso acaba afetando o pescado, principalmente aqueles organismos que são fixos, como ostras, chumbinho, sururu e caranguejos”, argumenta.

A partir de janeiro, o professor iniciará um projeto de recuperação do manguezal de Garapuá (Cairu), com a aplicação da técnica de fitorremediação, que utiliza plantas para absorver o carbono do petróleo.

Ele aguarda o resultado de dois editais para aplicar a técnica em duas outras áreas de manguezal.

Moreira ressalta que o ideal teria sido a instalação de barreiras na boca dos estuários para evitar que o óleo chegasse aos mangues. O especialista diz que, apesar de os órgãos que estavam à frente da emergência terem dúvidas sobre a eficácia, “quem foi a campo viu que funciona”.

O secretário de Meio Ambiente também destacou esse trabalho realizado por pescadores em parceria com os pesquisadores Miguel Accioly (Universidade Federal da Bahia) e George Olavo Mattos e Silva (Universidade Estadual de Feira de Santana), que resultou na cartilha “Como ‘pescar’ petróleo”. Informações do Portal A Tarde.

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